segunda-feira, março 24, 2003



OSCAR
ou The Show Must Go On?

Foram dois os comentários mais ouvidos a respeito do Oscar nestes dias pré-premiação. O primeiro, um comentário velho e que se ouve todo ano: o prêmio é um embuste, sem critérios qualitativos, manipulado pelos lobbies dos estúdios, um tal de Troféu Imprensa americanista. O segundo, talvez para dar novo fôlego ao já desgastado primeiro comentário, mostrava-se antenado ao momento presentíssimo: nada poderia ser tão fútil e ridículo que uma festa de gala em meio a um tempo de guerra.

Tenho que me confessar colonizado então. Ontem fiquei acordado até as duas horas da madrugado acompanhando a entrega dos prêmios. E, pior, ainda achei a festa curta, o que denuncia um histórico de acompanhamento das festas anteriores.

O mais engraçado é que, ao se tratar do Oscar, é sempre assim: todo mundo comenta, mas sempre faz um adendo anterior a respeito da inutilidade e da futilidade da coisa. E lá vamos nós ouvir os tais dois comentários citados que, no fundo da minha opinião, não passam de tremenda besteira. Porque acho besta querer exigir justiça, pregar um “padrão de qualidade” que às vezes reflete nosso gosto pessoal. O Oscar é uma premiação americana sim, e por isso suscetível a apelos monetários e conservadores. Nem por isso deixa de ser interessante para quem gosta de cinema. E falar que o reconhecimento do prêmio não vale nada, é ser muito franciscano e desapegado mesmo. Nem Caetano teve a alma tão elevada assim para recusar-se a comparecer. A segunda besteira, o papo que fazer festa em tempos de conflito é ridículo, nada mais é que assumir a neurose da doutrina bushiana e pregar que paremos tudo então e caminhemos todos ao front. Algo como cancelar todos os investimentos em cultura e educação para encaminhar as verbas ao Fome Zero. Alho e bugalhos, cada um no seu saco.

Bem, agora que já justifiquei minha alienação e expiei minha culpa, vamos à festa.

Para justificar a festa, monte-se o palanque

A festa, previsivelmente, não teve a mesma pompa que em outros anos. Os números musicais, a apresentação dos concorrentes, as coreografias, as homenagens, tudo foi espartanamente mais objetivo. Ficou mesmo melhor, talvez tenham achado o ritmo adequado a uma cerimônia sempre longuíssima.

Da mesma forma, como também como já se esperava, o dilema festa versus guerra foi combatido com o palco de demonstrações pacifistas em que se transformou o Kodak Theatre. Se foram adequadas ou não, talvez isso dependa do seu próprio posicionamento perante o assunto. Houve de tudo, desde protestos emocionados mas concisos, como a paz pedida por Chris Cooper (melhor coadjuvante por Adaptação), até o esperado discurso sem papas na língua de Michael Moore (melhor documentário, inegável, por Bowling for Columbine). Detalhe que o discurso de Moore, pelo caráter político e não só pacifista, provocou até mesmo algumas vaias dos até ali cândidos membros da Academia. Mas ainda houve mais, o Paz & Amor discreto e charmoso dos dedinhos de Susan Sarandon, as pombas da paz na lapela de quase todos, as palavras finais de Adrien Brody (surpreendentemente o melhor ator por O Pianista) que, quase cortado pela pressa do cerimonial e do Rubens Edwald Filho, ainda conseguiram expressar a sinceridade e a emoção mais bonitas da noite.

A vitrine pacifista não surpreendeu ninguém. Ninguém mesmo iria perder a chance de ter palco e microfone para o mundo, quer fosse para expressar sua opinião engajado ou para expiar a culpa de vestir smoking e não farda. O que ninguém esperava é que a Academia fosse também derrubar a imagem de embuste e manipulação e que realizasse a premiação mais inesperadamente coerente dos últimos anos. Lógico, não foi assim, tudo isso, mas foi quase.

Surpresas, quase até o final

Fique claro primeiro que errei todas as minhas previsões (confira a lista de vencedores aqui). Menos uma: Nicole Kidman era o único caso em que minha preferência pessoal combinava com as probabilidades, e não deu outra. De resto, fui um fracasso premonitório. Mas, na maioria das vezes, me surpreendi para melhor.

A escolha de Chris Cooper, melhor coadjuvante pelo esquisito Adaptação, deu o tom das surpresas que estavam por vir. Frida levando dois prêmios, ainda que técnicos, e Almodóvar vingando seu Fale com Ela com o Oscar de melhor roteiro original. Discursos de “viva-México” e a presença transparente de Jennifer Lopez. O jovem e audacioso cucaracha Gael García Bernal (de E Tua Mãe Também), após dar uma bela espetada em Bush, apresentando o número musical de Caetano cheio de elogios ao baiano, e este fazendo bonito no palco. Tudo estava latinamente diferente, não-convencional.

A surpresa maior, como é de praxe, ficou para o final. E, claro, chamou-se O Pianista. O filme levou, merecidamente mas de maneira totalmente inesperada, uma trinca de prêmios de extremo respeito (melhor roteiro adaptado, melhor ator e melhor diretor), o que só não se refletiu no Oscar de melhor filme porque, bem, afinal o mundo ainda não é perfeito, ainda há guerras, loobies econômicos e diversão gratuita.

Chicago ganhou um Oscar de melhor filme sustentado apenas pelos prêmios técnicos e pela barriga da Catherine Zeta Jones. Vitória dos velhos padrões da Academia, claro, mas um tanto oca e esquisita. De resto, demais prêmios de peso foram justamente distribuídos. Apesar das opiniões em contrário, gostei de Gangues de Nova York, e Martin Scorscese talvez tenha sido de novo o maior injustiçado da noite. O mesmo vale para Daniel Day Lewis. Mas perder para “O Pianista” foi perder com honra.

Foi isso. Uma premiação que arriscou-se coerente e inovadora, mas que, no final, não pôde resistir à escolha mais conveniente. De resto, todas as deliciosas futilidades, as gafes, o sorriso de Jack Nicholson, o sotaque carioca de Sean Connery, a presença dos vovôs Peter O`Toole e Olivia de Havilland, as piadas deslocadas e os figurinos infelizes que fazem a graça de qualquer festa.

E eu gosto de circo também, fazer o quê.

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