segunda-feira, outubro 03, 2005

Ataque pelos flancos



Talvez o segredo seja começar as coisas aos pouquinhos, enfrentar os problemas aos pedaços. Comer o prato pelas bordas, como dizem. Para que começar a ler Cortázar pelo "Jogo da Amarelinha"? Ou visualizar Borges como um velho e caolho professor de literatura inglesa que adora preencher seus contos com citações e teses indevassáveis? Parece ser gostoso romantizar as pendências, torná-las tragédias, ciclópes imortais, dragões indestrutíveis. Transformar o copo d'água numa tempestade tropical sempre valoriza o esforço empenhado. Mas ainda é possível ir mais longe – atingir o estado-da-arte da super-valorização exagerando a dimensão do muro ao ponto de a única solução razoável seja não ultrapassá-lo. Enfim, alcançar o desejável estado da procrastinação justificada.

E então volto ao começo – mas para que começar a ler Cortázar pelos labirintos do "Jogo da Amarelinha"? Não, não. Melhor comer pelas bordas.

Foi o que acabou me acontecendo ano passado, quando decidi empenhar meus 30 dias de férias num curso de espanhol em Buenos Aires. Não que seja necessário ir até Buenos Aires para começar a ler Cortázar (ainda que isso seja extremamente recomendável, e que tenha valido cada centavo). Mas tive a sorte de ter aulas com um professor que era também estudante de Literatura. E o literato sujeito, que além disso tinha também ótimo gosto, gostava de utilizar seus autores preferidos como material de classe.

Então ele trouxe “A Casa Tomada”, um conto do Cortázar. E eu falava também do Borges, e ele trouxe “A Intrusa”, do velho caolho. E então, depois de dois passos simples e pequenos, percebi que a melhor maneira de conhecer Buenos Aires era ler mais coisas como aquelas. Tinha que transformar aqueles dois escritores, antes gigantes intransponíveis, em meus guias de viagem.

Por sorte estava na cidade certa para se procurar livros usados. Comprei “Todos os Fogos, o Fogo”, do Cortázar e “Antologia Pessoal”, do velho caolho. Magníficos, de cabo a rabo. Borges tem sua dificuldade, não só pela erudição, mas pelo seu universo imensamente particular. Mas é o caso clássico do empenho que torna o prazer mais saboroso. Cortázar, por sua vez, é pop no melhor sentido do termo (se ainda preservou-se algum). Possui o apelo instantâneo, a fisgada inevitável, e é ao mesmo tempo inteligente, mordaz, irresistível. “A Autopista do Sul” é dum esquematismo genial. “Senhorita Cora” rasga a alma. “A Ilha ao Meio Dia” é mágica.

Comer pelas bordas, talvez seja esse o segredo. E escrevi tudo isso porque acabei de ler agora “O Informe de Brodie”, um dos últimos livros de contos do Borges, e aquele “Evangelho Segundo Marcos”, meu Deus, me impediu de ficar quieto no meu canto. É bom demais. Comer pelas bordas, é isso.

2 comentários:

Inagaki disse...

Mas "O Jogo da Amarelinha" também é pop "no melhor sentido do termo". Li-o pela primeira vez aos 12 anos de idade, e nunca mais esse livro saiu da minha mente. Anyway, Cortázar é bom de qualquer maneira, e você teve a sorte de pegar o melhor livro de contos dele, embora "As Armas Secretas" e "Histórias de Cronópios e Famas" sejam igualmente magníficos.

drex disse...

E aí Ina!

Sei do seu sentimento pelo "Jogo". Talvez tenha até sido por vc que aumentei minha curiosidade pelo Cortazar. E podes crer que o "Jogo" está na minha lista de desejos... Aliás, obrigado pelas outras dicas também, meu caro.

Abração,