sábado, junho 09, 2007





Os Los Hermanos são a banda mais importante a surgir no rock brasileiro mainstream nesta década. Parafraseando uma afirmação famosa sobre o Clash, eles são “o único grupo que importa”. Não é papo de fã (mesmo porque eu não o sou). O pop nacional é uma terra de sacações poucas e ruins, de falta de integridade, baixo nível de inteligência, coerência artística irrelevante. Nesse deserto de homens e idéias, os Hermanos ousaram fazer suas próprias regras e ganharam o jogo com elas.

Marco Antonio Bart é taxativo, sem perder a lucidez, neste ótimo texto sobre o anunciado fim do Los Hermanos e suas concorridas apresentações de despedida. Ele diz que não é fã, mas eu confesso que sou. Assino embaixo de tudo, e o resto é intriga da oposição.

quinta-feira, maio 17, 2007

Filmes, Discos e Livros Que Salvaram Minha Vida


1. Beautiful Girls, de Ted Demme (filme)
2. Mais que o Acaso (Sliding Doors), de Peter Howitt (filme)
3. Magnolia´s Soundtrack, de Aimee Mann (disco)
4. Tails, da Lisa Loeb (disco)
5. Is This It, dos Strokes (disco)
6. O Bloco do Eu Sozinho, dos Los Hermanos (disco)
7. Orgulho e Preconceito, de Jane Austen (livro)
8. Chico Buarque Ao Vivo (disco)
9. Blue Train, do John Coltrane (disco)
10. Trainspotting, de Danny Boyle (filme)
11. Verde, Amarelo, Anil, Cor-de-Rosa e Carvão, da Marisa Monte (disco)

Apesar da dose dramática um tanto exagerada, o título da lista é bastante auto-explicativo.

P.S.: Você não escolhe os livros, filmes ou discos que te salvam a vida. Eles te escolhem. Disto decorrem algumas coisas importantes. Primeiro, não te é dada a oportunidade de ter qualquer julgamento de valor artístico sobre eles. “Mais que o Acaso”, por exemplo, é uma comédia romântica bem regularzinha. Mas, a Gwyneth, oh mine, e o fato de aprender que ninguém espera a Inquisição Espanhola, bem, foram capazes de iluminar alguns meses sombrios. Em segundo lugar, muitas vezes o socorro vem de algo diametralmente oposto às coisas que você costumava admirar. Pouco ouvia de MPB antes da Marisa Monte vir me salvar da melancolia de um exílio voluntário além-mar. Por fim, é ingrato procurar qualquer racionalidade nessas escolhas. Não há sentido. Nada tem menos cheiro de auto-ajuda que o “Is This It”, dos Strokes, ou as aventuras casamenteiras da Jane Austen. Mas, enfim, funcionaram como ótimos placebos.

A verdade é que todos os citados acima se aproveitaram em algum momento da minha vulnerabilidade, me pegaram com a guarda baixa. Se intrometeram em minhas horas de melancolia, solidão, briga, doença, saudade, rompimento, dúvida, crise existencial, vocacional ou sentimental. E, depois de tudo, só me resta agradecê-los pela intromissão. Ai me mim sem eles, quem vai saber. Agora eles são da família. Falem deles bem ou mal, nutro por todos enorme carinho.

terça-feira, maio 08, 2007

Campeã





Uma pausa nas listas para registro de um evento extraordinário.

Primeira vez a gente nunca esquece.

Agora podemos voltar à nossa programação normal.

quarta-feira, maio 02, 2007

Meus 8 Filmes "Pequeno e Inevitável Sorriso"


1. Trainspotting, de Danny Boyle, 1996.
2. Festa de Família, de Thomas Vinterberg, de 1996.
3. Carne Trêmula, de Pedro Almodóvar, de 1997.
4. Magnólia, de Paul Thomas Anderson, de 1999.
5. Corra Lola Corra, de Tom Tickwer, de 1999.
6. The Royal Tennenbaums, de Wes Anderson, de 2001.
7. Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, de 2002.
8. El Abrazo Partido, de Daniel Búrman, de 2004.

Comigo acontece assim: estou lá, tranquilo, assistindo um filme, ouvindo um disco, lendo alguma coisa. E, de repente, sem piada ou comédia aparente, brota um sorriso no canto da minha boca. Nem gargalhada, nem mesmo risada, apenas um silencioso sorriso. Um pequeno mas inevitável sorriso.

Talvez isso aconteça com todo mundo, de uma maneira ou de outra. Um efeito psicosomático que desperta no exato momento em que percebemos que aquilo, o filme, a música, o livro a que estávamos atentamente observando, puxa, vai além da simples mediocridade, é diferente, é novo, é sublime, nos atinge em cheio, sobe um degrau, se torna único, talvez seja mesmo uma obra de arte.

No cinema, isso me aconteceu algumas raras vezes. E tão evidente é minha reação física (sim, ele, o pequeno e inevitável sorriso) que posso lembrar nitidamente a ocasião de cada uma delas.

O interessante é que, noto agora, esta lista de sorrisos só contém filmes contemporâneos, vistos na tela grande na época em que foram lançados. Na sétima arte parece ser assim que o pequeno e inevitável sorriso me pega. Não que eu não goste dos filmes clássicos, ou não reconheça seu valor. Muito pelo contrário, e quem me conhece sabe que sou um tremendo nostálgico de tempos não vividos. Mas suspeito (e apenas suspeito) que o pequeno e inevitável sorriso tem alguma coisa a ver não somente com a qualidade, mas também com a novidade, com a sintonia, com o surgimento. Talvez me gere algum orgulho ou empatia saber que aquela superação, putz, está sendo gerada bem aqui, dentro do meu tempo.

No fim, se trata apenas da minha linguagem corporal para transmitir a admiração (temperada com uma pitada de invejinha) que sinto pelo realizador da dita obra. O sorriso é minha maneira simples de dissimular, de escapar das palavras sujas e de dizer: "caralho, o filho-da-puta é foda".

segunda-feira, abril 23, 2007

Os 7 Filmes Mais Cool do Início da Década de 90


1. Nikita (La Femme Nikita), de Luc Besson, 1990.
2. Cães de Aluguel (Reservoir Dogs), de Tarantino,1992.
3. Amor à Queima Roupa (True Romance), Tony Scott,1993.
4. A Assassina (Point of No Return), de John Badham, 1993.
5. Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, 1994.
6. O Professional (Léon), de Luc Besson, 1994.
7. Parceiros do Crime (Killing Zoe), de Roger Avary, 1994.

Com o fim da barroca e estapafúrdia década de 80 e de todas suas aberrações coloridas e cultura pop infantilóide, os anos 90 deram início à Era do Cool. Por algum motivo o jeito de ser dos anos anteriores havia se esgotado e, pouco a pouco, a nova década foi construindo uma nova estética e um novo espírito. Mal e porcamente, para resumir o novo zeitgeist basta dizer que o chique agora não era mais ser “hot”, mas sim ser “cool”.

Visualmente, os anos foram se tornando cada vez mais limpos, sóbrios e elegantes. No exagero, beiramos também o insosso e anoréxico. No campo das idéias e atitudes, os 90 foram definitivamente a década da ironia, talvez uma reação ao relativismo e às incertezas do final de século. Frente à crueza da realidade, só era possível se divertir com um pouco de cinismo. A postura cada vez mais cética em relação ao futuro, no entanto, era preenchida com despreocupação e individualismo. Cada um na sua, numa boa. Um tipo de niilismo bem-humorado. O muro caíra e Fukuyama decretara o fim da História, enquanto Clinton, o criador do politicamente correto, melecava o vestido da estagiária. Num mundo como esse, sem utopias ou esperanças, não era recomendável levar as coisas muito à sério, não valia muito a pena se engajar profundamente em nada. Dane-se. Deixa pra lá. Nevermind.

O ambiente cultural, as artes, geralmente captam e reforçam o espírito do tempo com alguma antecedência. Na maioria das vezes, coube à literatura, ou mesmo à música, esse papel de vanguarda, de anunciador das novas idéias. O interessante é que, desta vez, o cinema também deu o pontapé inicial na Era do Cool.

Os 7 filmes da lista acima, escondidos por trás da máscara de meros títulos de ação, são as mais perfeitas fotografias dessa virada. Na virada da década, enquanto o público da MTV ainda escolhia entre New Kids on The Block e Bon Jovi, Luc Besson e Quentin Tarantino lançavam, respectivamente, "Nikita” e “Cães de Aluguel” e criavam uma fórmula - violência estilizada embebida em auto-ironia e humor sarcástico - que influenciaria a estética dos próximos dez anos. Kurt Cobain berraria “Nevermind!” também em 1991 e, então, estaria definido o caldo cultural que dominou a década. O amor, a ternura e a esperança ainda demorariam um bom tempo para voltar a dar as caras.

“Nikita” e “Cães de Aluguel” são os primeiros filmes da safra e, por isso, também os mais importantes. Besson e Tarantino foram as duas mentes doentias que captaram o momento e o amplificaram para o resto da população terrestre. Entretanto, foi somente em 1994 que “Pulp Fiction” atingiria um público mais amplo e se tornaria o ícone mais popular desse ciclo. É uma grande obra, pela qual, no entanto, não nutro uma afeição especial. Com os demais filmes da lista, sem motivo aparente, me acontece justamente o contrário – são filmes imperfeitos, nem tão significativos assim, mas pelos quais guardo bastante carinho.

A sensação de “movimento cultural” é ainda mais reforçada pelo fato de que todos estes filmes, além das similaridades estéticas, possuem entre si conexões bastante objetivas. Todos eles são, na verdade, criações mais ou menos diretas de Luc Besson ou Quentin Tarantino. Depois de filmar “Nikita”, o francês Besson lançou em 1994 seu primeiro filme anglófono, “O Profissional”, talvez meu favorito desta lista. Jean Reno, que já havia interpretado o papel clássico do “The Cleaner” em “Nikita”, é agora catapultado para sua carreira internacional. Gary Oldman é sempre um maluco inesquecível. Natalie Portman, doce e sensual aos 12 anos de idade, despertando inevitavelmente o lado pedófilo de muitos marmanjos. Por sua vez, “A Assassina”, de 1993, é na verdade uma refilmagem americana de “Nikita”, com o mérito de rivalizar em muitos aspectos com o original. Bridget Fonda em sua melhor forma, Gabriel Byrne sempre um clássico. E, ainda por cima, o grande Harvey Keitel assumindo a pele do “Cleaner”.

Harvey Keitel serve aqui de ligação entre os filmes de Besson e os demais quatro filmes, todos eles “tarantinescos”. Keitel, que já havia sido protagonista de Tarantino em “Cães de Aluguel", interpreta novamente em “Pulp Fiction” uma personagem claramente inspirada no “Cleaner” dos filmes de Luc Besson. Apesar de diferentes na composição e no estilo, ambas personagens tem como missão “limpar” os rastros de sangue deixados pelos protagonistas.

Os dois filmes restantes são criações indiretas de Quentin Tarantino, mas nem por isso menos tarantinescas. Ele escreveu o roteiro de “Amor à Queima-Roupa” , posteriormente dirigido com talento por Tony Scott em 1993. Tem Christian Slater e Patrícia Arquette em seus anos dourados. Já “Parceiros do Crime” , de 1994, é dirigido por Roger Avary, que seria posteriormente co-roteirista de “Pulp-Fiction", e é também produzido por Tarantino. Um sensacional filme de roubo à banco, filmado em Paris. Tem como vilão principal o francês Jean-Hughes Anglade que, para fechar o ciclo, já havia atuado, anos atrás, no “Nikita” de Luc Besson.

Alguns outros filmes da mesma época tem estéticas bastante similares, sem no entanto se irmanarem totalmente com esse grupo. “Cabo do Medo”, de Martin Scorsese, é de 1991, mas serve muito mais como uma referência paterna. Todos esses filmes são, profundamente, filhos diretos do profético “Taxi Driver” de Scorsese. “Assassinos por Natureza”, de Oliver Stone, é um outro expoente da violência sem sentido e cheia de charme. Mas Stone é tão histriônico que é impossível rotulá-lo de cool. Outro filme bem interessante é “Estranhos Prazeres” (Strange Days), estrelado por Ralph Fiennes. O filme, no entanto, é de 1996 e possui já uma certa falta de espontaneidade, uma espécie de pose planejada. Funciona bem, mas já é industrial. Não à toa a produção é de James Cameron, o senhor Titanic.

É possível também citar diversos diretores que, mais adiante, foram fortemente influenciados por esse início dos anos 90. Doug Liman, (“Go – Vamos Nessa”) e Guy Ritche (“Dois Canos Fumegantes”, “Snatch”) talvez não existissem sem aquelas obras. Outro descendente direto da Era do Cool é David Fincher, talvez aquele que tenha ultrapassado com mais talento a mera cópia tarantinesca. “Seven” e, principalmente, “Clube da Luta”, não se limitaram ao simples pastiche e conseguiram adicionar algo novo àquela receita.

Se a cultura dos anos 80 foi irritantemente infantil, o niilismo e a ironia dos anos 90 também soam bastante adolescentes. Ao menos na cultura pop, alguma maturidade só viria a surgir no final da década, na música a partir do "OK Computer" (1997), do Radiohead, e no cinema com "Magnólia" (1999) de Paul Thomas Anderson. Ou talvez não seja nada disso, talvez seja só eu que tenha crescido. Mas isso é outra história. O fato é que quando hoje em dia se vê grupos contemporâneos de rock alternativo, dos Strokes ao Cachorro Grande, vestirem ternos pretos, camisa branca e gravata lisa preta, é impossível não ser enviado quinze anos no passado e se sentar na mesma mesa onde estão, elegantes e corrosivos, Mr. Orange, Mr. Pink, Mr. White, Mr. Blue e Mr. Brown, os lendários cães de aluguel de Quentin Tarantino.

sexta-feira, abril 13, 2007

Listas

Virou algo como um símbolo do nosso tempo essa obsessão por elaborar listas. Esses tais “20 melhores filmes da década”, “10 homens mais sexy do mundo”, ou mesmo “os 5 melhores cantores de folk-music dos anos 60”, parecem estar estampados em todo lugar. Ao lado do i-Pod, da internet e do Big Brother, essa mania de categorizar, sistematizar e catalogar referências culturais também é um sintoma bem interessante do espírito desta nossa era.

Digo interessante porque, ironicamente, não há nada mais irracional que tentar impor esse grau de racionalidade a coisas completamente subjetivas. É, portanto, bastante estúpido dar qualquer credibilidade a 99,99% dessas listas, na sua grande maioria baseada em enquetes de abrangência minúscula, com nível zero de rigor conceitual ou qualquer análise mais apurada, quando não raro simplesmente construídas deliberadamente através do gosto pessoalíssimo de dois ou três redatores descolados.

Como já disse, é sintoma de um tempo que prefere o raso e o rápido ao profundo e criterioso, que privilegia o personalismo barato das escolhas subjetivas e depreza a necessidade de uma opinião mais elaborada, fria e distanciada. Ao mesmo tempo, também é sinal de uma necessidade obsessiva de colocar um pouco de ordem no caos, de criar logo um registro mais perene de uma realidade que passa cada vez mais rápido, mesmo que essa fotografia do momento presente seja algo apressada, sem muita qualidade ou critério. Como numa fotografia digital clicada por um telefone celular, o importante não é a nitidez mas apenas capturar o momento.

É cem por cento claro também que estou sendo um grandíssimo chato nesta minha análise. Porque, ao mesmo tempo que são estúpidas, as listas são inegavelmente deliciosas. Deliciosas de fazer, deliciosas de consumir. Um prazer inescapável, é simplesmente dificílissimo fugir do fenômeno – o que demonstra que essa obsessão é de verdade um belo sintoma da psique algo demente desta nossa geração.

Como às vezes sou quadradinho ao exagero, meu cérebro precisa desmontar algumas armadilhas antes de conseguir apreciar as tais listas. Para mim, por exemplo, elas só funcionam se forem feitas e vistas como algo que pretenda refletir exclusivamente um gosto pessoal. Listas absolutas, que se pretendem "a tábua da lei", não me convencem. A última vez que senti essa dificuldade foi quando o Marcelo Costa, do Scream&Yell, me chamou para votar nos Melhores do Ano a serem eleitos pelo site. Me senti honrado pelo convite, é claro, mas também bastante angustiado. Dúvidas, idiotas eu sei, me atormentavam. Como escolher os “cinco melhores discos lançados em 2006” se eu devo ter escutado apenas uma dúzia de álbuns novos durante o ano? Como votar na “melhor música do ano” se eu devo ter escutado, otimisticamente, não mais que 0,001% das músicas lançadas em 2006? Eu me sinto tranquilo em escolher, é claro, os cinco melhores álbuns que eu escutei em 2006. Isso eu consigo. Posso também eleger aquela que, após ser devidamente filtrada pelos meus gostos, costumes e preferências, formados biológica e historicamente, se transformou na melhor música a chegar aos meus ouvidos no ano que passou.

É por isso que, no caso dessa pesquisa do Scream&Yell, sempre achei muito mais interessante consultar os votos individuais de cada “eleitor” convidado (que o Marcelo gentilmente disponibiliza) do que saber dos resultados finais de cada categoria. Enquanto o resultado consolidado me parece algo vago, as listas individuais me trazem um pouco da fotografia de cada pessoa, refletindo não apenas seus gostos e preferências culturais mas também revelando um pouquinho do perfil de cada um, da sua história e das inevitáveis influências das suas origens, do seu meio, da sua atividade.

Por mais incontáveis ranqueamentos que a Bizz, a MTV e a E!Television divulguem, e por mais fascinantes que eles sejam pela sua vã tentativa de colocar ordem na bagunça, essas listas serão sempre algo disformes, forçadas e incompletas. As melhores listas, as mais gostosas de se ler ou fazer, são sempre as listas particulares.

E é claro que toda essa gastação de verbo anterior foi simplesmente uma tentativa de me justificar. Sim, me entregarei a mais esta chaga dos tempos pós-modernos. Nas próximas semanas uma sequência de listas povoará e dará alguma vida a este minguado bloguinho. Lembrando sempre que as listas não refletirão a Verdade, apenas minhas preferências pessoais.

terça-feira, março 13, 2007

Buenos Aires

Como estive em Buenos Aires durante um mês em 2004, sempre que um amigo vai embarcar para a capital portenha (e parece que cada vez mais amigos embarcam para a capital portenha) recebo o pedido de alguma dica útil sobre a cidade. Na primeira vez que isso aconteceu, me empolguei tanto em compartilhar tudo que adorei por lá que preparei um e-mail gigante, repleto de sugestões e endereços. O tal e-mail, é claro, foi reaproveitado diversas vezes dali em diante.

Aproveito então para publicar essas dicas por aqui e também lá no Reconquista, o blog que fiz durante aquela viagem. Se alguém tiver a sorte de estar a caminho de Buenos Aires brevemente, aproveitem as sugestões e recebam toda a minha imensa e infinita inveja. Um dia também volto pra lá.

***

Seguem então alguns lugares que não se pode deixar de ir:

Bairro de San Telmo - Feira de Antiguidades (aos domingos)
É algo como o Bexiga, um bairro italiano antigo, cheio de sobradinhos do começo do século XX. Vale a pena ir aos sábados para curtir a feira de antiguidades, muito legal.

Bairro de Palermo Viejo - Feira de Artesanato (aos sábados e domingos)
É o bairro descolado do momento, tipo uma Vila Madalena mais tranquila. Tem uns restaurantezinhos cool, lojas de roupas hippie-mudernas, galerias de artê. A feirinha é bem animada, cheia de "gente jovem e bonita".

Puerto Madero
É o antigo porto da cidade, agora modernizado. É um ponto turistico óbvio, mas lindo. Um calçadão à beira dos canais das docas, com dezenas de restaurantes. Tente ir também durante a noite, quando fica mais bonito ainda. Almoce na churrascaria Siga La Vaca (20 pesos e coma à vontade) ou jante no La Caballeriza (carnes maravilhosas, em ambiente mais chique e, lógico, caro).

Bairro da Recoleta - Feira de Artesanato e Cemitério.
É o bairro chique tradicional, tipo Jardins-Higienópolis, muito bonito e arborizado. A Feira acho que tem todos os dias. Não coma na região, pois é muito caro, tudo restaurante pega-turista.

No Centro, a dica é passear pela Rua Florida, o inevitável calçadão comercial e turístico. Aqui vale a pena não dar muito mole pros trombadinhas. Mas sem grilo, é só não ficar exibindo a filmadora. Uma ótima ocasião para se juntar aos locais é comprar algumas empanadas e ir almoçar sentado no gramado do Parque San Martín (no final da rua Florida). Depois, caminhar pela Avenida Santa Fé (avenida de comércio mais chique).

Também no centro, na Rua Reconquista, tem dois pubs com música ao vivo, o Matias e o Kennigans. Baladinha leve e divertida.

Não deixe de ir ao Notorious (Av. Callao, 966), uma loja de discos de jazz e rock que também é um restaurante e tem shows todas as noites. Imperdível.

Um lugar descolado para comer é o Bistrot Dadá (Rua San Martin, 941), também no centro, muito pertinho da Rua Reconquista.

Se quiser comprar roupas moderninhas, a loja da Puma é uma boa dica. Tem na Rua Florida e na Av. Santa Fé, onde, ao ladinho, também tem uma loja da Adidas.

Outra lugar "descolê" é a Bond Street. É uma galeria muderninha, tipo a galeria do rock de São Paulo, cheia de lojas de discos, roupas, quinquilharias, etc. Fica na Avenida Santa Fé, 1630.

Se quiser comprar livros a Avenida Corrientes tem a maior concentração de sebos gigantes que eu já vi na vida. Lá também se localizam os teatros e no sábado o movimento de pessoas caminhando pela avenida atravessa a madrugada.

Para livros e cds novos, a cidade tem milhares de opções, de lojinhas a megastores, mas a livraria El Ateneo na Av. Santa Fé, 1860 vale a visita. Foi construída dentro de um teatro antigo e é lindo.

Não deixe de ir também à Biblioteca Nacional, perto da praça Evita Perón. O prédio da biblioteca é daqueles modernos, de concreto à vista, mas é de embasbacar. Vale também a pena subir, entrar na biblioteca e apreciar a vista lá de cima.

Um lugar bacana para assistir filmes argentinos é a sede da INCAA (Instituto Nacional de Cine Y Artes Audiovisuales). Tem três salas de cinema e fica no centro, na rua Lima, 319.

Ah, não esqueçam também de sempre pedir a cerveja QUILMES de LITRO. Muito mais econômica. E também sempre prefiram o BIFE DE LOMO (uma espécie de filé migon), muito mais macio que o BIFE DE CHORIZO (tipo um contra filé).

Disfruten.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Divagações ao som do último disco do The Killers ou A respeito do Gosto Duvidoso



Todo mundo tem algo de podre escondido na gaveta. E se digo “todo mundo” é porque eu tenho, e espero não estar sozinho nessa história. Me refiro àquele tipo de coisa que, se revelada, causaria vergonha, vexame, culpa até, e acaba encontrando seu local mais adequado ali no fundo do armário, enfiada logo atrás da pilha de meias ou embaixo daquela cueca mais puída e já raramente usada.

Felizmente, esses elementos ocultos nem sempre se revelam grandes segredos capitais. Se expostos, raramente teriam força para abalar as estruturas da família, da tradição ou da sociedade. Nem todos temos, por exemplo, uma nova opção sexual para tirar do armário. Na verdade, na maioria das vezes, misturados aos eventuais pecadilhos morais, o que se esconde ali é um determinado lado da nossa personalidade, alguns gostos, hábitos e preferências que, digamos assim, seja melhor não dividir com ninguém ou, pelo menos, dividir somente com poucos e bons. Afinal, são aquelas pequenas coisas que revelam nosso chamado Gosto Duvidoso e que, portanto, merecem permanecer secretas.

No meu caso, por exemplo, se você fuçar com atenção no fundo da minha gaveta vai esbarrar no seguinte:

- diversas (muitas) edições antigas da Playboy,
- algumas páginas constrangedoras de um diário escrito no longínquo 1988,
- um versinho de amor mais antigo ainda, cheio de metáforas com temática astronômica,
- um filme pornô, VHS, roubado de locadora,
- uma infelizmente curta lista das meninas com quem fiquei, com nome, data e local, parando em 1994,
- uma partitura de piano do “Tema do Cascão” da turma da Mônica,
- duas camisas e um boné da Portuguesa, meu time do coração,
- aproximadamente setenta edições do Tio Patinhas,
- um poster do Deep Purple,
- dois rascunhos de letras para um pretenso tema heavy-metal com temática medieval,
- e, finalmente, uma coleção de vinis e cds do melhor do Hard Rock do fim dos anos 80.

Coisas constrangedoras, afinal. No entanto, depois de toda essa dolorosa enumeração, minha sensação é de alívio. Compartilhar esse meu lado podre, de certa forma, descarrega um peso dos ombros. Até porque, apesar do reconhecido Gosto Duvidoso de tudo isso, o carinho e afeição por todos esses itens é imenso.

Mas era ao último item onde queria chegar. Minha pré-adolescência hard-rocker. Ao contrário da grande maioria da crítica musical brasileira, que cresceu nos anos 80 ouvindo Smiths e Jesus & Mary Chain, e diferentemente da nova geração indie-blogueira, que se formou ao som de Pavement e Sonic Youth, meus primeiros ídolos de adolescência foram aqueles caras com a cabeleira cheia de laquê. Tudo bem que, na minha cronologia musical, os Beatles tenham vindo primeiro e que o Nirvana viria logo depois. Mas naquele momento crucial, aos 13 anos de idade, o início da fixação pela música e pelo mundo do espetáculo, era o Hard-Rock-Poser que dominava o mundo. Poison, Bon Jovi, Skid Row e, claro, Guns&Roses. Eles lutavam contra os infames New Kids On The Block. Eles eram os mestres do universo.

Corte para 2006.

Depois da já insuportável onda de flashback dos anos 80 (flashback que claramente privilegiou a New Wave e o Electro Pop), fiquei ansiosamente aguardando o momento em que se ressuscitariam as bandas poser de hard-rock que dominaram o final da década. Era a sequência lógica dessa insana indústria da nostalgia. Para o bem ou para o mal, essa hora haveria de chegar.

Dois anos atrás, o Darkness bem que tentou. Mas eram tão parecidos, faziam tanta força para reproduzir a imagem daqueles tempos, que acabaram se tornando um pastiche, uma cópia cômica do que já passou. Fracassaram, e o flashback do poser pareceu morrer na praia. Talvez aqueles anos ainda não estivessem bem decantados, ainda não tivessem sido devidamente maturados no fundo da gaveta. O hard-rock, afinal, ainda soa como Gosto Duvidoso, ainda desperta vergonha e rejeição.

Mas sugiro que é neste ponto onde reside um certo engano. Porque, de mansinho, sem ninguém notar, está aí uma banda que faz todas as honras aos vergonhosos anos do hard-rock poser. Pela tangente, dispensando o figurino, sem assustar ninguém, essa banda traz de volta toda a afetação, energia e barroquismo daqueles tempos alegres. Com letras otimistas e motivadoras, pomposos arranjos de teclado, solos melódicos de guitarra e até mesmo inimagináveis refrões em coro, o The Killers acabou de vez com o cinismo galopante da virada do século. Arrebentou as paradas, provando que novamente é possível ser cool (ou ser hot) com letras e melodias cheias de excessos, arrebatadoras e desavergonhadas. Discretamente, sem maiores explicações, ressucitaram a alma do hard-rock.

Em 2005, o primeiro disco explodiu embalado pelas já clássicas canções “Somebody Told Me” e “Mr. Brightside”. No final do ano passado, era portanto bastante difícil fazer com que o segundo álbum correspondesse às altíssimas expectativas. “Sam´s Town”, no entanto, é simplesmente sensacional. Ainda melhor que o disco de estréia. A banda dispensou qualquer pretensa evolução ou diversificação de estilo – apenas aprimorou sua proposta inicial e chegou à excelência.

No que diz respeito ao mote deste texto, “Sam´s Town” talvez seja ainda mais ousado. De certa forma, o som agora se distancia um pouco das influências mais pop do primeiro disco, influências que fizeram alguns considerá-los descendentes diretos do Duran Duran. O novo disco é mais rock, especificamente no sentido poser do termo. Chega-se mesmo a flertar com algumas coisas do heavy-metal melódico, outro clássico do Gosto Duvidoso. A canção “Confessions of a King” possui a cavalgada rítmica clássica do Iron Maiden. A presença no álbum de aberturas e encerramentos auto-referentes, cheios de arranjos orquestrais, lembra as grandes epopéias do Helloween.

No Hard Rock, no entanto, a prova final se resume ao êxtase, ao descabelar-se desavergonhadamente. Prova superada com méritos. Afinal, após o encantamento das primeiras audições, é impossível não cantar junto a canção-título do álbum ou, principalmente, o hit “When You Were Young” e sentir de volta a mesma sensação adolescente de imortalidade, poder e inocência de quando, há mais de quinze anos, cantávamos “You Were Born To Be My Baby” do Bon Jovi.

Algo mudou no mundo, afinal. O Killers trouxe, sem escrúpulos, tudo o que é brega de volta às paradas do rock´n´roll. Resgatou a afetação, o sentimento e o excesso. E, ainda assim, conseguiu ser reconhecido pela imprensa e pelo público mais metido e descolado.

De certa forma, é como se eles fossem capazes de arrancar do fundo da gaveta de cada ouvinte aquele vexaminoso lado podre, cuidadosamente escondido, mas que acaba se revelendo particularmente terno e docemente verdadeiro. Desde a primeira vez que ouvi “Somebody Told Me”, o primeiro single da banda, guardo o mesmo sentimento - The Killers é deliciosamente constrangedor.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Melhores de 2006 - S&Y

Saiu enfim o resultado da eleição dos melhores de 2006 do site Scream&Yell. Noventa e dois votantes em treze categorias - dá para imaginar o tamanho do trabalho que o Marcelo Costa teve para compilar os votos e editar todo o material. Mas o sujeito é incansável mesmo. Simplesmente louvável, meu caro. Afinal, já são três anos seguidos produzindo um apanhado da cultura pop muito mais abrangente e completo que qualquer mídia profissional, revista ou caderno cultural, tenha feito por estas terras tupiniquins.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Carpe Diem at Tiffany´s

Posso reclamar da vida, da falta de dinheiro, me afundar em questões existenciais, divagar indefinidamente sobre os rumos do próximo ano. Mas no que diz respeito a saber aproveitar os momentos de ociosidade solitária, tenho orgulho de afirmar: sou um profissional. Plenamente realizado.

No fundo, não é difícil, nem mesmo requer muitas posses. Esta noite, por exemplo. Depois da dura labuta de um dia de verão sem ar-condicionado, a receita foi bastante simples: trocar a roupa besuntada, vestir shorts e camiseta e me sentar na varanda. O resto veio como por consequência – vento fresco, abrir a garrafa do Santa Carolina Carménere, pegar o queijo camembert levemente vencido na geladeira. O jantar estava servido. Para completar, pôr o the best of Ella Fitzgerald para tocar e carregar no colo o “Bonequinha de Luxo” do Truman Capote para acabar de ler. Um pouco de hedonismo não deveria trazer culpa a nenhum cristão.

A oposição diria que a receita acima é pretensiosa demais e, talvez, ligeiramente gay. Eu diria que tal cardápio não é nada pretensioso, apenas sensato. Talvez pretensioso seja escrever sobre ele num blogue, mas aí se trata de outra história. Quanto a parecer gay, bem, eles me parecem bastante felizes.

Por mais que nos convençamos do contrário, o prazer hoje não custa caro. É claro, o cinema, o teatro, a assinatura da Net e do Vírtua estão pelos olhos da cara. Mas a garrafa do vinho me custou onze reais, o camembert vencido não mais que seis e a Ella eu tirei da estante. E, definitivamente, ter a Holly Golightly me encantando a cada linha, meu caro, isso não tem preço.

***

Sinceramente, esperava muito menos de Truman Capote. Já tinha lido algumas páginas do seu "A Sangue Frio" e sabia que o sujeito sabia narrar uma história. O filme-biografia do ano passado, no entanto, me rendeu alguma antipatia. Mas "Bonequinha de Luxo", no seu descompromisso de novela de noventa páginas, é um livro delicioso. Holly Golightly, a contradição em pessoa, caipira e chique, espontânea e esnobe, self-made-woman e aristocrata na mesma medida, é apaixonante. Nunca vi o filme e já caí de quatro por ela, mesmo sem conhecê-la na pele da Audrey Hepburn. Imagine depois.