segunda-feira, fevereiro 17, 2003






Momento Supercine de Cinema


Deus é Brasileiro

- Doutor, estou com um problema.
- Pode dizer, meu filho, não se encabule.
- Não gostei de "Deus é Brasileiro", não...
- Desculpe, não entendi direito.
- Fui ver "Deus é Brasileiro", aquele filme, com o Antonio Fagundes fazendo papel de Deus, e não gostei não.
- Como é que é? Como assim meu filho? Espere só um minutinho...

(...)

- Pronto, já mandei a recepcionista embora. Você era o último paciente mesmo. Agora me explica direito esse negócio...
- Ôo, doutor, assim o senhor me assusta. É grave isso, é?
- É gravíssimo, meu filho. Você andou comentando isso com alguém?
- Não, não doutor, o senhor é o primeiro. Estava meio encabulado...
- Fez bem, fez bem. Melhor que isso não se espalhe. Mas, me diga, como o senhor pôde achar uma coisa dessas?
- Ah doutor, não gostei do filme não... Falaram um monte por aí, diálogos espertos, Cacá Diegues renovado... Acho que estava esperando demais... Isso é fatal doutor?
- Não é fatal, meu filho, mas é extremamente inconveniente! Veja bem, um filme tão positivo, tão bem humorado, com um Brasil tão exuberante. E ainda por cima com o Fagundes! Suspeito de um quadro agudo de insensibilidade patológica.
- Doutor, juro que, no final do filme, até me senti culpado. Mas, sei lá... Não me sensibilizei mesmo com o filme. E olhe, nada contra mostrar pobreza e sertão, gostei bastante daquele Central do Brasil, por exemplo. Mas esse aí, não sei, não me pegou... E olha que nem é tão exuberante assim...
- Que ninguém te ouça, meu filho! Logo em tempos tão otimistas você me vem criticar esse filme? Olhe, acho que seu caso está mesmo pendendo para um quadro crônico de falta de patriotismo latente...
- Mas doutor, veja se o senhor não concorda, o filme até que começa bem, simpático, mas depois fica patinando na mesma estória. E no final, Deus vai embora e não disse a que veio. Tudo fica por isso mesmo...
- Mas que heresia, meu filho. Mas me diga, nem mesmo daquele moleque você gostou? O menino é fantástico!!
- Nisso eu concordo, doutor. O tal do Wagner Moura vale o filme. Mas é só isso, viu... Quanto a esse negócio de bons diálogos, sou mais é assistir um episódio do Seinfield.
- Pronto, como desconfiei. Infecção imperialista em estágio avançado. Isso sim é grave, meu filho!
- Olhe doutor, vou falar tudinho, não quero esconder nada do senhor. Acho que esse filme, depois das últimas produções do cinema brasileiro, é fraquinho, fraquinho...
- Mas, filho, olhe a bilheteria do filme! Fantástica!
- Ah, isso aí já é culpa do Antonio Fagundes. Doutor, com todo respeito, confessa uma coisa pra mim. O senhor não percebeu uma edição assim meio capenga, um ritmo de diálogos meio estranhos, além também de um bando de coadjuvantes com atuações bem constrangedoras? Não dá um cheirinho meio de desleixo, meio de filme brasileiro dos anos 80?
- Bem, é, talvez... Na verdade, rapaz, você deve estar deveras acostumado às fortes doses de cinema americano, por isso não se acostuma com esta nossa nova linguagem.
- Não é questão de nova linguagem, não. É questão de profissionalismo, de qualidade. Cheguei a achar mesmo ridículo cogitarem que esse filme tenha possibilidades de concorrer ao Oscar.
- Fale baixo, rapaz. Duvidando agora da nossa representatividade internacional?
- Ai, doutor, será que isso é grave mesmo?
- Sinto muito, meu filho. Seu diagnóstico é realmente gravíssimo. Está patente que você é portador de radical implicância com o cinema brasileiro, o que, num quadro avançado, pode levar a uma terminal contrariedade ao interesse nacional.
- E tem cura doutor?
- Cura, cura mesmo, filho, tenho que dizer que não existe.
- Estou desenganado então?
- Pior, meu filho... Sob a nova regulamentação da Secretaria de Combate às Tendências Endêmicas, a determinação é que você seja imediatamente isolado do restante da população.
- Maldito filme, meu Deus!
- Mas acho que ainda resta uma esperança...
- Diga, doutor, por favor...
- O senhor não comentou sobre o filme com ninguém, não é?
- Não...
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Acha que consegue manter o silêncio e não falar sobre isso com mais ninguém?
- Bem, acho que sim.
- Nem mesmo com sua mulher?
- Juro, juro que não falo pra ninguém.
- Bom, sendo assim, acho que dá para te liberar sem quarentena. Mas boca fechada, ok?
- Claro, doutor, claro. Não sei como agradecer...
- Não há de quê, filho. Mas entenda, temos que zelar pela unidade nacional. É claro que existe uma taxa extra que vou ser obrigado a cobrar, tudo bem?
- Ah sim, claro...
- Além do valor da consulta...
- Tudo ótimo, doutor, imagine. Quanto lhe devo?
- Com ou sem recibo?
- Sem, é lógico.

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